Um a zero ou zeros e uns

Bomba!

As manchetes com “O meia francês Paul Pogba assina pelo Bahia” estampam os principais jornais da cidade. A torcida se anima pela chegada da estrela e programas esportivos repercutem sem parar a influência que o jogador terá na campanha do time no Brasileirão. Números e estatísticas são mostrados a todo tempo e alguém levanta a bola: “Mas ele não cria tantas chances assim né?”

Profile de Paul Pogba no CIES Football Observatory

As estatísticas antes eram só perfumaria, fora aquelas que praticamente GRITAM sobre a efetividade do jogador (gols do atacante, cestas de 3 do pivô, números de winners do tenista e etc), e passatempo de poucos aficionados que passavam horas analisando isso. Mas foi a partir de 2002 que a importância dos dados analíticos para um bom desempenho esportivo ficou clara e passou a ditar uma nova forma de gestão.

Time de orçamento modesto (o 3º menor da liga), o Oakland Athletics havia perdido seus três melhores jogadores na pré-temporada e chegava pra disputa da MLB (Major League Baseball) com sérias dúvidas sobre sua performance. Foi então que utilizando uma intrincada rede de dados e de análise, o gerente-geral da equipe Billy Beane percebeu que estatísticas, até então desconsideradas, tinham um impacto severo sobre a forma que o jogo era jogado. Seu método permitiu a contratação de jogadores de perfil modesto que apresentavam grande resultados em índices específicos e catapultou o Oakland para a vitória na divisão oeste da liga e para a pós-temporada (onde o time foi eliminado). Ali era gestado o método que ficou conhecido como Moneyball e que foi copiado por 100% dos times da liga na temporada seguinte.

Trailer do filme “Moneyball”

Se o jogo passou a ser ditado por dados, métricas, zeros e uns e uma profunda análise de estatísticas, era esperado que as narrativas sobre o esporte também se valessem do mesmo método. O cruzamento de resultados e dados através do tempo permitiu que uma extensa gama de sites, escritores, jornalistas, torcedores, scouts e toda e qualquer pessoa que se interessasse por um esporte, criassem novos parâmetros para contar suas histórias.

Tais parâmetros fizeram com que as redações jornalísticas passassem por “várias mudanças ao adotar novas formas de produção e distribuição de notícias, motivada principalmente pela popularização da internet e por diversos avanços tecnológicos” (D’Andrea, 2017, pg.2). As relações entre a mídia e o público passaram a ser mediadas cada vez mais por aspectos multimídia e possibilitaram inclusive novas formas de jornalismo como a utilização de textos construídos por algoritmos através de softwares como o Natural Language Generation(NLG).

Como parte da preparação para as olimpíadas de Londres em 2012, o jornal britânico Times deu vida, através da execução de um algoritmo que cruzou todos os dados disponíveis, a uma hipotética corrida entre todos os medalhistas olímpicos da história dos 100m rasos. Não é preciso dizer que o Bolt ganhou né?

Projeto “One Race, Every Medalist Ever” do jornal britânico TIMES

Sites como o Opta, Transfermarkt, Squawka, Whoscored? entre outros catalogam métricas sobre todas as ações possíveis de um jogador dentro de campo. Quantos passes foram para trás, quantas corridas foram verticais, quantas inversões de bola, mapas posicionais e por aí vai. Com esses dados em mão, as pautas esportivas se tornaram cada vez mas específicas servindo a uma fanbase ávida por dados estatísticos. Se antigamente apenas gols seriam levados em conta para medir o motivo de Pogba ter melhor performance na França do que no Manchester United, hoje a análise vai muito além do mero resultado.

Alguns especialistas vêem esse excesso de informação como algo negativo pois causaria o que Weisenberger (2012) chamou de uma Crise de Conhecimento. “Para o autor, as informações permaneciam clara e concretamente localizadas (em livros, bibliotecas, jornais) e permitiam a construção do conhecimento por meio de”trabalho duro” de estudiosos que se tornavam, por conseqüência, especialistas em assuntos. No contexto digital, vive-se o oposto, segundo o autor: as informações encontram-se espalhadas desordenadamente; são produzidas por amadores, plagiadores e usuários que consideram um bom conteúdo aquele que possui o maior número de curtidas”. (CORRÊA & BERTOCCHI, 2012, p. 3). Nisso entra o papel de uma curadoria dos dados, seja humana ou de um Algoritmo curador, que seria capaz de filtrar as informações e organizá-las de forma ordenada.

O que não significa que a sua inteligência esteja isenta a erros. Tal algoritmo poderia através das suas métricas me dizer que Pogba não seria a solução para o meio-campo do Bahia. Mas quer saber? Essa eu pago pra ver.

Para cego ver: Paul Pogba com a camisa do Bahia em partida contra o Sergipe

Algoritmos em campo

A relação entre esportes e tecnologia é complexa. Essa relação necessita de uma seleção de informações e um controle do fluxo de todo esse emaranhado de dados que existe. No geral não entendemos e naturalizamos esse contato muito rapidamente, enquanto questionamos algumas coisas e condenamos outras antes mesmo de nos aprofundarmos no caso. Chamamos grandes atletas de máquinas ou robôs, como um elogio, mas depois criticamos a falta de arte no esporte. Gritamos por “garra” para os técnicos, mas toda vez que o time fica bagunçado em campo indagamos a ausência de tática. Reclamamos que o nosso feed só mostra vídeos de futebol, mas quando aparece um vídeo do Ronaldinho Gaúcho assistimos, curtimos e compartilhamos.

O responsável em transformar esses dados em diferentes resultados são os algoritmos. Para Gillespie, em seu texto “A relevância dos algoritmos”, a importância deles vai muito além desse seu desempenho primeiramente pensado, através desses algoritmos de recomendação, conseguimos os meios para “saber o que há para ser conhecido” e “participar dos discursos sociais e políticos”. Desse modo, os assuntos da comunicação humana perpassam pelo o que é colocado como principal por eles.

E no âmbito dos esportes não seria diferente. Os esportes fornecem variados dados que sozinhos não significam muita coisa, e nem existe a possibilidade de um humano rápido e facilmente envolver todas essas informações. Mas com os algoritmos se consegue modificar formas de atuar de acordo com os dados coletados

Os DADEs (Departamento de analise de desempenho) estão conquistando espaço na maioria dos grandes clubes de variados esportes ao redor do mundo. Mas a interferência dos dados de eventos anteriores e possibilidades futuras está começando a fazer maior diferença. Isso por causa da presença de algoritmos mais elaborados e com maior eficiência que scouts (estatísticas) utilizados anteriormente, e mais estruturada do que a visão antiga dos treinadores de que esporte se resume ao que acontece apenas em campo.

Inclusive, muitos treinadores duvidaram por muito tempo da eficácia dessas tecnologias, preferindo a premissa de que o futebol é onze contra onze. E realmente é. Mas com dados organizados, onze jogadores podem estar mais preparados que seus onze adversários, e assim conseguir desempenhar uma tática melhor.

Os algoritmos desse ramo estão tão evoluídos que conseguem reconhecer automaticamente formações de times de futebol no momento que o jogo está acontecendo. O que facilitaria o trabalho do treinador e até modificaria sua presença no jogo. Outros algoritmos vinculados a câmeras que filmam todas as partidas e treinos de diferentes atletas, profissionais ou amadores, conseguiriam encontrar e editar os melhores momentos automaticamente.

Em ambas situações as atividades desempenhadas por treinadores e olheiros seriam dispensadas e trocadas apenas pela intervenção de um programador de forma prévia e na atualização desse algoritmo. Algo já percebido por Gillespie, “O fato de estarmos recorrendo a algoritmos para identificar o que precisamos saber é tão marcante quanto termos recorrido aos especialistas credenciados, ao método científico, ao senso comum ou à palavra de Deus.” (Pg. 97). Em que ele discute sobre a dependência e confiança cega nesses algoritmos na mesma medida que substituem instâncias anteriores.

Porém essa interferência de tecnologias algorítmicas nos esportes podem ser benéficas para a sua evolução, como já aconteceu. O basquete, por exemplo, teve suas marcações nas quadras modificadas após se perceber que as cestas de três pontos estavam acontecendo mais em comparação às de dois pontos. Essa informação foi descoberta por causa da análise de dados das partidas, uma forma de algoritmo manual da época e fizeram com que a “linha de três” fosse aumentada.

Existe também aquelas tecnologias que têm como objetivo tirar proveito dos dados para conseguir prever resultados das partidas de acordo com resultados anteriores, momentos dos atletas, questões climáticas, entre outros. E vender essas previsões para empresas de apostas que buscam ganhar dinheiro dos seus usuários.

Não se pode esquecer que os algoritmos possuem um enviesamento na sua criação. Existe um padrão de inclusão no seu período de criação que seleciona e pré-determina o que, onde e como aparecerá. Então todos seus dados que são fornecidos para essas empresas são cruzados e entregues de volta por meio de publicações e propagandas. Com todos interesses comerciais presente. Desse modo, os algoritmos realizam um trabalho antes exercido pelos editores de jornais.

Um fã de esportes que procura por melhores momentos e lances de qual for o esporte terá sua timeline recheada de publicações e propagandas relacionadas às equipes, jogadores, materiais, campeonatos. Se procurar uma vez qual material é utilizado em uma bola de vôlei, vão aparecer várias propagandas de promoção de bolas de vôlei, por exemplo. E por causa dos interesses comerciais, os esportes e atletas profissionais estarão mais presente, preferindo ainda os “craques”.

E com isso, os atletas amadores começam a utilizar uma interface e uma estética de atletas profissionais para aparecer nos locais ocupados pelo esporte profissional. Burlando os algoritmos e se adequando à sua lógica, mudando inclusive a forma com que compartilhariam suas informações. “Por mais que essas ferramentas nos incitem a nos tornarmos legíveis para elas, nós também as inserimos nas nossas práticas, alterando seu sentido e até mesmo seu design, algumas vezes” (GILLESPIE, 2014, p.112)

Essa interface tem como objetivo aparecer mais do que os outros atletas amadores e até uma tentativa de concorrer com o local preenchido pelos atletas profissionais que estão presente na maioria das timelines dos fãs daquele esporte, e que causam um vislumbre para quem está inserido naquela bolha. Portanto, os usuários interferem e influenciam nas dinâmicas dos algoritmos em uma forma de tentar entender aquilo que lhe foi apresentado.

As nuances dos esportes atualmente e a mediação presente nas mídias digitais possuem a interferência dos algoritmos. Inegável. Mas se deve perceber todo enviesamento prévio existente. Além dos impactos que eles representam nos seus envolvidos, tanto os dos esportes profissionais, quanto os dos esportes amadores. Portanto, tudo que se apresenta para nós por meio das mídias digitais são, de acordo com o cruzamento de dados, os resultados desejados para nós e seguindo uma lógica comercial também. Então se Ronaldinho Gaúcho aparece em sua timeline é porque de alguma forma você quer ver o “rei do dibre”.

Sorria, você está sendo marcado!

“Sorria, você está sendo marcado!”. Essa frase podia ser usada para identificar as câmeras nos locais de grandes eventos esportivos, e também vale para os jogadores que são observados por tecnologias como VAR e até mesmo nas suas redes sociais pelos torcedores. As questões de vigilância e privacidade são alguns dos grandes temas de debate na atualidade e os esportes enquanto reflexo da sociedade não podiam ficar de fora disso.

As câmeras de segurança são uma clara forma de controle, e são consideradas por muitos a mais relevante. É o dispositivo tecnológico que melhor representa a ideia de vigilância, no seu sentido mais “panoptiano” possível. Uma ferramenta que nos faz fazer coisas, e cumpre com a ideia de vigiar e possivelmente punir.

As confusões em estádios de futebol, por exemplo, são casos corriqueiros na realidade brasileira e de outros eventos esportivos em outros lugares do mundo. E frequentemente aparecem casos de sujeitos envolvidos nessas confusões que foram pegos graças à utilização de câmeras.

As câmeras e sua utilização de acordo com os conceitos de Michel Foucault em seu texto “O Panoptismo em Vigiar e Punir” criam o que se chama de “sujeitos inseguros” e produzem dados que visam impedir a ação de sujeitos, que por já terem presenciado uma situação ou saberem das consequências do que haverá caso realizem o ato são obrigados a repensar suas ações. Com isso, ele se sente em uma vigilância permanente e limita seus atos.

Portanto, sistemas de biometria, verificação de ingressos e câmeras de vigilância tentam impedir com que torcedores tomem atitudes errôneas por causa dessa relação entre vigiar e punir que está presente nessa maneira de sociedade de controle.

Vários exemplos da utilização eficiente dessas ferramentas aparecem no meio esportivo. Como, por exemplo, no caso do uso da biometria em jogos na Arena da Baixada, estádio do Athlético Paranaense, que fez com que quatro torcedores fossem reconhecidos e presos por crimes fora do cenário do esporte.

Se pode pensar nessa mesma temática ao trazer o que representa o VAR (Video Assistante Referee) para o futebol e os challenges (desafios) para os demais esportes. Esse auxílio do vídeo para as tomadas de decisões das arbitragens também são uma forma de vigilância sobre os atletas. E a premissa é a mesma, fazer com que os atletas mudem suas atitudes ou pensem em fazer diferente do que normalmente fariam por saber que estão sendo vigiados.

A crítica ao VAR se assemelha ao que é questionado na utilização das tecnologias fora do campo. A sua má utilização pode gerar erros devido a interferência humana, que pode levar as tomadas de decisões erradas. Por enquanto, a vigilância no jogo por si só não termina com os erros e nem com as atitudes errôneas que os envolvidos realizam durante a partida.

É inegável aqui a importância das tecnologias interconectadas; a internet das coisas; e do algoritmo na modulação do comportamento daqueles que frequentam o espaço. Tudo que é feito dentro e fora dos espaços esportivos se torna mais uma espécie de histórico visível em um processo que, na verdade, guarda suas informações em forma de dados, em um processo conhecido como dataficação. E assim te controla, dando a liberdade para fazer o que quiser, mas caso faça o errado seja punido, por meio de uma vigilância permanente.

Em uma abordagem mais atual no âmbito esportivo se percebe uma vigilância constante dos torcedores com os jogadores. Essa relação entre eles é algo antigo, já que o torcedor sempre esperou que o jogador de seu time esteja se dedicando inteiramente para que obtenha o resultado que venha lhe satisfazer. Mas não existia em outras épocas a forma que temos hoje de se saber e controlar a vida do outro indivíduo, por exemplo por meio das redes sociais. Em que jogadores são muitas vezes criticados após derrotas polêmicas por estarem se divertindo, ou coisa do tipo.

Esse controle também é explicado por Foucault, “[…]aquele que está submetido a um campo de visibilidade, e sabe disso, retoma por sua conta as limitações do poder; fá-las funcionar espontaneamente sobre si mesmo; […] torna-se o príncipio de sua própria sujeição”. Explica que aqueles que antes eram vigiados começam a se vigiar e, portanto, aqueles com maior visibilidade se limitam mais nas suas ações. Algo que se representa nessa relação entre os torcedores e os jogadores com o advento das redes sociais.

Alguns jogadores limitam a divulgação da sua particularidade ou até deixam de fazer algumas coisas por causa dessa vigilância permanente que os torcedores exercem neles. E essas situações entram no imaginário dos torcedores como de suma importância para o resultado obtido por seus times. E com isso, começam a utilizar dessas mesmas ferramentas de controle para disseminar ódio, por causa dessa dualidade nos equipamentos tecnológicas atuais, que são de comunicação e vigilância ao mesmo tempo.

Por mais que se tenham benefícios na evolução do monitoramento tecnológico, o panóptico por muitos visto como intocável se mostra com vários pontos cegos. Talvez, tenhamos que começar a fazer uma marcação mais cerrada com os usos das tecnologias, especialmente as de vigilância e não apenas naturalizarmos elas nesses espaços.

SEU GOL PELO MEU LIKE!

Acaba o clássico e seu time ganhou! Você curte uma foto da página oficial e logo embaixo vem o vídeo do gol marcado no finalzinho do jogo. “Que golaço meu artilheiro NUNCA TE CRITIQUEI” você comenta de forma engraçada marcando o autor do gol. Ele e outras pessoas te dão like. Uma página de humor compartilha seu comentário em uma publicação engraçadinha. Você vai lá e comenta freneticamente toda publicação relacionada concordando com aliados, dando aquela cornetada nos rivais, distribuindo likes e fazendo piadas sobre futebol. Isso é a rede social digital!

As redes sociais de todos os esportes em todo lugar do mundo hoje permitem isso. Você, como ator social, se conecta com outros atores sociais, sejam eles representações de pessoas ou das diversas marcas, ligas, equipes ou atletas que encontrarão nesse meio uma forma de chegar mais rápido no seu consumidor e ter um retorno de como estão suas ações por meio do engajamento.

Esses conceitos de atores sociais e de conexões sociais são de Raquel Recuero que no seu livro Redes Sociais na Internet, busca, entre outras reflexões, analisar esses principais elementos das redes sociais. Ator social seria essa representação do usuário e as conexões são essas diferentes formas de atores sociais se relacionarem. E dessas relações se formariam: laços associativos numa interação reativa, como por exemplo seguir perfis oficias de times e entrar em grupos de assuntos pertinentes ao indivíduo, por ser uma escolha de fazer ou não; e laços dialógicos por meio de uma interação mútua, conversas públicas em grupos ou posts e conversas privadas.

Dessa forma, percebendo que nas redes sociais seria mais fácil agrupar esses consumidores para interagirem sobre as marcas, ligas e times que estão presentes fortemente nesses espaços. Grandes ligas, marcas, times e atletas se misturam em posts para se regarem de interação mútua dos seus seguidores. E para um mundo globalizado como está atualmente é preciso ter material em diversas línguas e conquistar esses usuários que poderiam ter uma barreira linguística para atrapalhar. Além das hiperespetacularização de seus produtos, lances, partidas ou atletas, imprescindível para conquistar a interação reativa dos likes, compartilhamentos ou comentários.

Por causa disso grandes ligas como NBA, NFL, Premier League, ATP, La Liga se espalharam no engajamento de consumidores por todo mundo. Com a criação de torcedores se interagindo sobre times de locais bem distante ao seu. E torcendo por atletas que divulgam em seus perfis sociais parcerias com marcas de roupa e equipamentos que se tornam uma necessidade para quem curtiu ou comentou.

Mas a interação mútua também se faz presente nesses espaços. A possibilidade de se responder o comentário do outro cria uma interação que pode ser em concordância ou discordância, mas o que importa é que existe uma maior variedade de ações. Até ao ponto de os perfis mais famosos interagirem com esse usuário para dar a sensação de proximidade com seu atleta, time ou liga preferida. E produzir conteúdo de marketing com ações sociais para fazer seus torcedores interagirem sobre isso, como o caso das ações sociais do Esporte Clube Bahia.

A disponibilidade de informações e produtos dessas ligas e times são variadas, mas podem não chegar a todos por causa de suas diferenças sociais. Entretanto, é nas redes sociais digitais que aqueles que têm os mesmos interesses se unem em grupo para discutirem sobre o que gostam e produzirem seu próprio conteúdo a partir do conteúdo programado por perfis sociais, e assim chegar a todos. Uma forma de se interagir sem a necessidade da imposição de opinião e enviesamento que perfis oficiais esportivos esperam.

Ciberativismo é uma forma de ato político utilizando os locais digitais para propagarem discursos diferentes e críticos ao que está na mídia, ou buscar formas de se esquivar desse controle. Outro exemplo disso são as transmissões ao vivo ou por comentários de eventos sem transmissão ou que possuem barreiras para se assistir. Essas são formas de ciberativismo, como tratado por Carlos Amadeu em Ciberativismo, cultura hacker e o individualismo colaborativo, e trazido para o âmbito esportivo.

E dessa forma contrária ao que os atores sociais convencionais impõem como forma de interagir, os perfis de grupos criados a partir da afinidade por variados esportes, ligas, times ou regiões e seu jeito particular de se tratar o tema ganham forças nesse espaço. Por exemplo, as páginas de memes e comentários engraçados desses grupos possuem tantos seguidores e engajamento quanto perfis oficiais. E se tornam muito importante no imaginário e na interação dos usuários. Inclusive sendo agregados pelos marketing oficiais.

Exemplos dessa agregação podem ser vistos no marketing do SporTV na cobertura do Campeonato Brasileiro de Futebol que começou a utilizar a linguagem dos comentários dos usuários do seu fantasy game Cartola FC no próprio jogo e nas transmissões do canal. E só mostram como as diferentes formas de conexões sociais vão se propagando e criando novas formas de consumir o produto, mesmo sem a necessidade dos perfis oficiais abastecerem a discussão dentro do meio esportivo das redes sociais digitais.

Olho no Lance!

Sábado de manhã. Você liga a TV em um jogo do Campeonato Inglês, mas lembra que aquele jogo importante do italiano também irá passar. Ora, estamos em 2019 e com um toque a tela se abre e você acompanha o jogo que quiser simultaneamente via streaming. Mas e o espanhol em dia de clássico? Os aplicativos de live scores (resultados ao vivo) no celular quebram esse galho. Hora do almoço e o Djokovic entra em quadra contra o Federer, Que partida! Logo depois tem rodada do Brasileiro. Será que eu escalei meu Cartola? Deixa eu ver quantas roubadas de bola o Zé Rafael fez na última partida. Chega a noite e lá vem os play-offs da NBA. Vamos nessa Lakers, coloquei o Lebron no meu Fantasy.

Exemplo de escalação do Cartola FC

A tal da convergência

Em uma definição básica, podemos dizer que convergência é uma aglutinação de formatos e terminais para a difusão de aspectos multimídia. Jenkins dizia que a convergência não devia ser medida pelos seus dispositivos e sim pela multiplicidade dos seus conteúdos através destas plataformas midiáticas. O que nos levaria a despejar termos técnicos como Crossmedia, hipermidia, transmedia entre outros. Vamos deixar isso um pouco de lado. 

No aspecto mais prático, se antigamente o ato de torcer era visto como algo restrito a uma territorialidade e um senso de pertencimento, agora com a propensa difusão e transmissão tem sido comum que essa relação seja cada vez mais mediada por telas. Telas essas que vão evoluindo em quantidade e qualidade de coberturas dos mais diferentes eventos esportivos.

Propaganda da plataforma de streaming DAZN

O novo caráter globalizado do esporte em si, em que a consolidação de marcas globais é intuito de praticamente 10 em cada 10 times de ponta, permite que as tais marcas se espalhem por todo o mundo e incentiva a formação espontânea de grupos que ignoram as barreiras linguísticas e territoriais, tão vigentes no século passado. Como se pode perceber na existência de serviços de streaming e aplicativos live scores criados ou licenciados pelas maiores ligas e entidades de cada esporte.

A formação de uma cibercultura plural e globalista, mediada pelas tecnologias de comunicação e informação, possibilita uma desterritorialização daquilo que antes era considerado a forma de torcer e cria novas territorializações a medida que novas tecnologias são estabelecidas. Com foco na reterritorialização da forma de torcer causada pelas novas tecnologias comunicacionais e informacionais, em que as redes sociais digitais e a ampla variedade de opções de se acompanhar qualquer evento esportivo aproxima o torcedor com suas equipes ou seus jogadores preferidos de qualquer lugar do mundo.

Exemplo de aplicativo de live scores

Você liga seu Facebook e entra no seu grupo do Real Madrid Brasil, comenta sobre a partida do Casemiro. Logo depois manda aquela provocação esperta para seu amigo sofredor que calhou de torcer pro Boston Celtics, totalmente indiferente aos 6993 km que os separam. Enquanto assiste o jogo na TV, acompanha estatísticas reais sobre este jogo na tela do celular e ao seu término, ouve um podcast sobre O MESMO JOGO, constituindo uma experiência múltipla em torno de um mesmo sentido e fomentando o consumo acerca do esporte. 

A constituição do gosto esportivo em geral e do futebol em particular passa pelo incremento desse poder de imaginação, uma construção coletiva, pública e tensionada, que é impregnada aos indivíduos por meio do processo de socialização […] Esta [experiência agradável] só pode se realizar plenamente com a interiorização da capacidade de imaginação, equivalente à construção de uma dada sensibilidade profundamente estética, emotiva, cognitiva e, em certos casos ao menos, politica (DAMO, 2015, p.54) 

Não que isso tudo tenha revolucionado os meios de comunicação. Adorno já havia pensando nessas estruturas ao formular seu célebre conceito de Indústria Cultural. Mas essa lógica foi modificada através de uma nova organização do processo de produção de sentidos, constituindo uma cultura cada vez mais participativa no consumo e também na própria produção.

Canais como Desimpedidos já passam dos assombrosos 7 milhões de inscritos e se desdobram em plataformas e conteúdos que vão desde podcasts até a participação em transmissões de grandes emissoras de TV.
É uma liberação do pólo da emissão, uma característica da cultura digital que possibilita que o antigo receptor produza a emita a sua própria informação de forma livre, multimodal (vários formatos midiáticos) e planetária. (LEMOS, 2009, p.39) 

Agora, se você me der licença, a NFL já vai começar.

NFL MOBILE

Enrolados

Estamos profundamente imbricados e, melhor, enrolados numa manta de extrema complexidade e que muita das vezes nos parece invisível, mas, na verdade, é responsável por compor a realidade. Essa cobertura é estruturada por diversos elementos dos quais é impossível ignorar a presença dos artefatos, com os quais estamos relacionados e nos relacionamos na maneira de ver o mundo.  

Então, a questão a ser tratada nesse texto é perceber como absorvemos as nuances da cibercultura como necessárias e intrínsecas, a ponto de as naturalizar à medida que estamos mais imersos nessa determinada lógica. Vamos comentar essa questão por meio de uma análise da relação da sociedade e cultura contemporânea com as tecnologias, especificamente com os aplicativos de mediação da prática esportiva.

Run, Forrest, run!

Um aparato tecnológico muito utilizado hoje em dia são os aplicativos de mediação esportiva existentes nos smartphones, smartwatchs e outros dispositivos tecnológicos. 10 em cada 10 praticantes de ciclismo e corrida mantém em seus aparelhos aplicativos que lhes auxiliam durante a prática esportiva. Com a abertura das informações que antes se restringiam apenas aos bancos de dados, é possível visualizar na palma da mão informações como a distância percorrida, tempo feito, trajeto, velocidade média, gasto calórico, batimentos cardíacos e toda uma gama de informações que acabam por complementar a atividade.

A incorporação dos dispositivos tecnológicos com o intuito de obter tais  informações, o que antes não eram possíveis ou demandavam muito esforço, foi fundamental na aproximação de admiradores dos esportes e atletas amadores de uma dinâmica mais próxima do profissional. E não só isso, mas também numa perspectiva mercadológica, através de um incentivo de um nicho de consumidores que criam uma cultura participativa baseada em produtos materiais como acessórios, dietas e equipamentos, e também em produtos simbólicos, como um estilo de vida propagado por “influencers” no You Tube e outras redes sociais, potencializado pela existência e ação dos algoritmos.

Os aplicativos de treinos de esporte específicos também possuem uma evolução que leva o usuário cada vez mais no caminho para o DIY (Do it yourself ou faça você mesmo), eliminando os processos intermediários que pontuavam tais atividades. Nesses espaços, a interação com o algoritmo acaba por criar uma espécie de “personal trainer virtual” pronto para entender as demandas do usuário como se houvesse um acompanhamento prático. Nesses dois exemplos é apresentado uma das resoluções apontadas por Weissberg no seu texto “Os Paradoxos da teleinformática”, em que os avanços tecnológicos funcionariam como forma de tecer o novo com o antigo e não contra. Ou seja, ocorre um processo de desterritorialização, mas que logo é territorializado novamente.

Existem também aplicativos que incentivam diretamente a conexão entre praticantes de esportes coletivos estimulando a criação de laços e de nichos específicos de cada esporte que geram assim novas formas de socialização em um ambiente já definido. Esses novos vínculos nas relações com o esporte, que sempre foram mediados por interfaces tecnológicas, modificam as relações sociais e cria novas formas de prática e observação.

Como trazido por Johan Huizinga no seu livro Homo Ludens, o jogo é algo intrínseco ao homem, ele considera o jogo como uma atividade realizada dentro de determinados limites de tempo e espaço, regida por regras estabelecidas e obrigatórias. Desse modo, ele seria uma representação da vida dentro da vida que imita a própria, todavia seus praticantes têm a consciência de que é apenas uma representação, diferente da vida cotidiana.

É curioso observar como elementos simples da vida cotidiana, como o mero ato de correr estão cobertos por entrelaçamentos, que são capazes de passar despercebidos aos olhos menos atentos. Vivemos nesse espaço de relação entre a tecnologia e o humano, e somos completa e inteiramente enrolados por ele!

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Onze contra onze e a tecnologia em jogo

Vivemos na era da polarização, tanto como fenômeno global quanto como nacional, e esse fato abrange os mais diversos espaços da vida em sociedade. No âmbito do esporte não se consegue fugir muito dessa dinâmica, vide o que temos acompanhado com a inserção de novas tecnologias no futebol.

O debate é comandado por duas perspectivas principais: dos integrados, aqueles que acham que a utilização de elementos tecnológicos como o VAR e a tecnologia da linha do gol darão fim a todas as polêmicas e injustiças existentes dentro das quatro linhas; e os apocalípticos, que acreditam na destruição daquilo que se considera o futebol na sua raiz existencial e que proporciona as maiores emoções presentes no esporte, podendo tornar a partida monótona com o uso excessivo dessas tecnologias e dando fim as polêmicas que seriam intrínsecas a prática e a vivência do futebol.

Entretanto, observar o mundo numa dinâmica dualista de preto e branco, apenas em filtros fotográficos, é simplista, pois isso exclui toda complexidade e variedade de possibilidades que a vida representa. A realidade é pautada por uma vastidão de cores e espaços cinzentos. Nós, enquanto espécie, somos seres dos artefatos e até por isso é comum que esqueçamos sua presença e a internalizemos como natural. O esporte, mais uma vez elucidando com o futebol, existe devido à presença e a apropriação de técnicas e equipamentos, que inclusive estão presentes no seu cerne. A bola é uma exemplificação óbvia disso.

Todavia, a questão vai muito além, para que haja o futebol como conhecemos hoje é necessária a presença de uma série de invenções e aparatos. O estádio, os uniformes, o apito, a chuteira, a caneleira, o meião, a imprensa, o rádio, a televisão, o marketing, o gol, instituições organizadas, assim por diante, num processo que seria extremamente audacioso de catalogar todos os elementos que estão presentes diretamente ou não das quatro linhas e dos indivíduos presentes em campo.

Em resumo, a tecnologia está presente desde a origem dos esportes e segue num fluxo constante de atualização dessas atividades. Então podemos perceber que inserir aparatos nas dinâmicas esportivas não é nada de outro mundo, nem inovador. Importante conceituar que o centro de qualquer atividade esportiva é o envolvimento físico e mental, regras definidas e competição entre os envolvidos. O uso dos aparatos ajuda a potencializar essas características, garantir que o regulamento seja cumprido, potencializar a capacidade do atleta e assim também, o nível da competição.A inserção de novas tecnologias oriundas de tempos específicos é normal para todos os esportes.

À medida em que novas formas de tornar o jogo mais justo para quem joga e mais divertido para quem assiste são criadas e absorvidas, mais evolução ele terá. Existem outros exemplos de esportes que evoluíram com a criação desse aporte tecnológico específico de cada período da história. O tênis, por exemplo, era jogado nos seus primeiros anos com a mão, mas pouco tempo depois da sua criação foi incorporado um material que hoje é imprescindível para a prática: a raquete de tênis, de modo que existe uma imensa diferença entre a primeira raquete e a mais atual do mercado.

Além dos artefatos técnicos diretamente ligados ao esporte, existe também a evolução dos meios de comunicação que cobrem e debatem suas nuances. Em seus primórdios a divulgação dos resultados era meramente da imprensa escrita, quando não se tratava apenas de um contato intrapessoal dos grupos que praticavam, e com uma cobertura específica da região em que se realizavam as partidas. Com a evolução da tecnologia comunicacional, as distâncias espaciais e temporais diminuíram de tal forma que, atualmente, é possível ter conhecimento dos resultados ao vivo de praticamente todas as partidas de todos os campeonatos de todos esportes em todo o mundo.

Outro ponto a se perceber é a forma com a qual as relações sociais envolvidas com o esporte também se modificaram com a presença das novas tecnologias materiais e comunicacionais. As conversas dos espectadores de uma partida de qualquer que seja o esporte nos dias de hoje são totalmente diferentes de um tempo atrás. As estatísticas fizeram com que se notasse o esporte muito mais por números do que pela sua beleza, gerando outros conflitos de dualidades para o mesmo, como o debate entre desempenho e resultado, que nem sempre andam juntos. Ou como a indústria cultural e suas tecnologias dão atenção ao que o craque da equipe está vestindo, ou o material que está utilizando. A representação do material se torna muito mais importante que sua usabilidade.

Um ponto inegável é que algumas tecnologias foram criadas e realmente fizeram com que os esportes se tornassem mais justos e prazerosos para seus praticantes e espectadores. Regras foram incorporadas junto a artefatos tecnológicos para que os esportes tivessem menos erros provenientes da imperícia humana, como os desafios (challenges), no tênis e no voleibol, que conseguem acertar 99% das vezes se a bola tocou na linha ou não. Materiais esportivos de maior qualidade começaram a ser utilizados para que a capacidade física não fosse levada a sua sobrecarga e, assim, para que não gerasse maiores sequelas nos praticantes.

O mesmo efeito foi conquistado com a evolução da tecnologia da preparação física dos atletas. Além de exemplos de tecnologias que apareceram para potencializar a vivência dos espectadores.Todavia, não podemos acreditar que o uso da técnica solucionará todos os problemas do esporte e exterminará todas as polêmicas esportivas, muito menos de um dia para o outro. É um constante processo de aprimoração e que é sempre em alguma medida intermediado por um humano, claramente uma variável falha na equação.

Os desafios já incorporados há mais tempo pelo tênis e pelo vôlei, assim como o futebol atualmente, ainda colocam uma margem de erro contestável, além de que em alguns outros momentos precisam passar pela interpretação de um juiz que, mesmo seguindo todas normatizações do esporte específico, pode não ser o mais justo ou o mais certo pelo simples motivo de depender da sua própria interpretação, e que provavelmente será diferente da interpretação de outro com a mesma capacidade técnica para tal interpretação como ele.

Portanto, as inovações tecnológicas surgem para auxiliar o esporte a evoluir e se tornar mais justo, menos impactante fisicamente e um maior entretenimento para quem assiste, tudo na medida da realidade em que se encontra. Eles não vão resolver todos os problemas relacionados às regras e à justiça de uma partida. Muito menos impedir que todas as lesões aconteçam.

Talvez seja a hora de analisar a relação da tecnologia com o esporte de uma maneira menos apocalíptica, entendendo que desde sua origem estão em contato, mas também sem assumir um otimismo utópico. Os equipamentos falham, na medida em que são criados e comandados por nós em alguma instância. Nessa partida, de onze contra onze, em que a tecnologia está em campo, com esse pensamento polarizado dificilmente teremos um vencedor.